A evolução do jazz se deve grandemente em virtude da improvisação, esse processo evolutivo jamais teria se desenvolvido, com tanta eficácia, se não tivesse passado por esta linha moderna de criatividade. As manifestações musicais não seriam o que são hoje, se não fosse a contribuição africana, sua maneira sinuosa de cantar, enfim, a herança cultural.
Estas manifestações culturais começaram a ecoar em diversas regiões dos Estados Unidos como: Mississipi, Arkansas, Kansas City, Chicago, New Orleans, Alabama, New York e muitos outros. Ainda pode-se ouvir em Nova Orleans músicos tocando em suas cornetas marchas fúnebres, todos seguindo em direção a um cemitério, ou tocando nas mesmas cornetas Spirituals alegremente em uma igreja, mas o interessante, era como eles criavam aquelas melodias cativantes, a linha melódica da peça não era executada sozinha, o instrumentista acrescentava notas de passagem que unidas às notas básicas, mais à escala de blues acrescida da blue note (nota blues), proporcionava uma sonoridade diferente, sem perder a essência da obra musical e dando-lhe um visual inovador. Na realidade a improvisação é uma reescrita, uma recriação do tema naquele momento, em um outro será de maneira diferente.
A improvisação consiste basicamente de criatividade e técnica, se um músico não possuir estes dois requisitos não será completo, lhe faltará algo. O ato de improvisar não é apenas milhões de notas jogadas sobre uma seqüência harmônica (acordes) sem nenhuma razão. A improvisação não é andar no escuro, é como andar na ausência de luz, não é simplesmente atravessar um rio e sim como atravessar este rio, desviando-se das pedras e dos buracos que estão obscuros. A improvisação permite ao músico de jazz, andar no limite com total controle da situação. É bom salientar que improvisar é criar uma música no momento em que se toca, e isto independe da quantidade de notas ou da velocidade que será inserida na peça musical, o mais importante é o sentimento do momento sempre aliado à técnica.
Jazz é improvisação, é criatividade e requer antes de tudo, conhecimento musical, mas como em toda regra há exceção, existiram músicos do meio que não liam nada de partitura mas mesmo assim foram bem sucedidos e contribuíram para a inovação do jazz. Dentre estes inovadores podemos destacar Wes Montgomery, um guitarrista que usava o polegar para tocar ao invés da palheta, a sua música era tão peculiar que despertava a atenção daqueles que o ouviam, o interessante de tudo é que ele tocava de ouvido e não perdia para quem lia partitura. Um dos grandes guitarristas europeus, Sacha Distel, foi assistir um show de Wes em Nova York, onde estava de passagem, ao vê-lo tocar e improvisar não suportou continuar assistindo ao espetáculo, sentiu-se profundamente frustrado e foi embora.
Também é importante frisar, que muitas vezes o improviso se torna, por diversas razões, mais importante, mais extenso e mais belo do que o próprio tema. John Coltrane, que foi um ícone do jazz modal era capaz de improvisar sobre um tema por horas; em sua música "Blue Trane", o tema é simples e fácil, um blues de 12 compassos, mas a improvisação é algo estarrecedor.
Enfim, Jazz é música para se improvisar, tocar o que não está escrito, a música surge no momento em que se toca, é um momento sublime, eles tocam o que sentem, é um momento de individualidade e ao mesmo tempo coletivo, um estado de graça e de puro prazer. Por essa razão o jazz não pode ficar vinculado a uma elite, cuja, cultura vem de manuais práticos, restrito à clubes noturnos ou em um canto separado nas lojas de discos, tem que ser mostrado ao grande público, sempre foi música popular e deveria continuar sendo.
Elias Sena Santos